Sinara queria descobrir. Fazia quase duas semanas que ela desconfiava do marido, mas não tinha coragem de segui-lo. Apesar da desconfiança, não se sentia no direito de invadir a privacidade de alguém e se desprender de valores éticos e morais. Mas Carlos chegava todos dias tão exausto, sem ânimo para nada. Nada mesmo. Sinara não entendia porquê.
Chegou a cogitar que estava meio gordinha, por isso entrou na academia e aderiu a um regime. Emagreceu um pouco, mas nunca tantos homens a paqueraram na rua. Afinal, o que havia com Carlos? A moça tinha 27 anos, não estava mais agüentando jogar sua vida fora com um homem que não correspondia a suas expectativas e mais, não correspondia ao amor que ela oferecia todos os dias, às 23h, quando ele chegava.
Com a aproximação do Dia dos Namorados, Sinara pensou em um último plano, algo que seria a cartada final, a última tentativa de fazer seu casamento ser, pelo menos, mais feliz. Mas ela precisava de uma certeza: se o marido estava, ou não, traindo-a. E Esquecendo todos valores que seu pai passou, durante anos criando as filhas sozinho, e que a fez ser assim: uma pessoa de caráter. Ela chegou a refugar, mas tomou a posição de que ia descobrir essa história, estava cansada de se sentir enganada.
Seu primeiro passo foi pesquisar preços de câmeras digitais e gravadores no jornal. A consciência começava a pesar quando ela se deparava com notícias que a faziam se sentir “um ser humano normal”: ‘18 câmeras vão vigiar o parque’; ‘Feijó: "Tudo que é de governo eu posso gravar"’. Ela não queria gravar a vida de milhares de pessoas que sequer conhecia. Ela queria gravar a vida do marido e, afinal, ela não era “vice-esposa”, não só podia como tinha o direito de gravar as conversas do cônjuge.
O dinheiro que Sinara tinha ganho vendendo produtos de beleza para as amigas foi investido nisso. Era o futuro do seu relacionamento que estava em jogo. Valia a pena. A máquina era boa. Tirava fotos, gravava vídeos, e caso não descobrisse nada teria utilidade no futuro, para perpetuar os futuros momentos felizes do casal. O gravador ela podia vender depois em qualquer saite de vendas da Internet. Todo mundo faz isso hoje em dia.
Carlos era advogado, tratava de direito tributário. Realmente era muito ocupado, sempre foi bem visto no ramo do direito, tinha contatos e, além do mais, a vida de luxo que a sua mulher tinha, era graças a sua dedicação. Na segunda-feira, faltando quatro dias para o glamuroso dia dos apaixonados, Sinara pegou seu New Beatle e foi fazer uma visita ao marido no seu escritório.
- Oi, Célia. Carlos está ocupado? – Célia era a secretária e braço direito de Carlos.
- Bom dia, dona Sinara. O dr. Carlos está em reunião, mas vou avisar que a senhora está aqui.
Célia ligou. Carlos pareceu surpreso e disse que em dez minutos atenderia a esposa.
Passados os dez minutos, Sinara se dirigiu ao escritório e lá ficou. Conversou com Carlos e, sutilmente, enquanto ele se distraia no computador, implantou aquele gravador, por baixo das folhas espalhadas. Inspirou-se no vice-governador. Estava preparada para fazer uma descoberta. A câmera foi colocada em cima do armário, bem escondida. Ela mostraria as imagens. Quem seria a cachorra?
Sinara passaria novamente no escritório no dia seguinte, pelo fim da tarde. Célia tinha lhe dito que ele teria uma audiência.
De noite, um pouco mais cedo, às 22h, Carlos chegou. Cansado, ranzinza, como de costume. Mas, parecia trazer mais alguém. Era seu pai.
- Pai?! O que está acontecendo?
O velho estava tão fraco que passou reto em direção ao quarto. Carlos foi direto ao assunto: explicou para Sinara que seu pai estava com um problema grave de saúde. Ficou sabendo fazia mais ou menos duas semanas, estava tentando resolver a situação sem preocupar a mulher. Chegava em casa todos dias mais tarde porque ficava com ele no hospital até as 22h30, que era o fim do horário de visitas. Temia contar para a esposa, pois sabia como ela valorizava qualquer data comemorativa – No dia da árvore, ela plantava uma em algum parque da cidade –, confiava na melhora do sogro, por isso tentou omitir da esposa. Entretanto, o velho, que conseguia ser ainda mais ranzinza que Carlos, reclamava todos os dias de ficar naquele hospital:
- Onde está meu pijama? Eu quero as minhas pantufas. Me leve embora daqui! Quero ir para a minha casa.
Diante dessa situação, Carlos sem mais saber o que fazer, resolveu, naquele dia, segunda-feira, quatro dia antes do Dia dos Namorados, levar o pai da esposa para sua casa na esperança de que a filha lhe incentive a tratar seu problema de saúde.
Sinara parou. Olhou para o marido e se desesperou. Nem ela sabia que havia se casado com homem de coração tão bom, tão nobre. Ela estava apavorada com a situação do pai e, ao mesmo tempo, surpreendida com a atitude do marido. Ela precisava tirar aquele gravador de lá. E a máquina? Ela precisava tirar.
Na cabeça de Sinara, seguindo o pensamento maquiavélico, os fins justificam os meios. Ela estava preparada para se dar de frente com uma traição que justificaria toda aquela parafernália escondida no escritório, mas não. Deu-se de cara com a maior prova de amor.
- Vem cá, pai. Hoje tu vais dormir aqui em casa, no quarto de hóspedes. Tem umas pantufas que o Carlos usa às vezes, tu podes usar. Amanhã eu vou te levar pro hospital, pois não podes ficar sem medicação, muito menos sem os médicos por perto.
Vindo da filha, o velho cedeu.
Sinara foi dormir com aquilo na cabeça. Como pôde desconfiar que seu marido a estava traindo? Ela estava se sentindo mal. Não conseguia dormir. Precisava buscar aquele gravador e jogar a fita fora, pegar a máquina, cuidar de seu pai e, ainda, programar algo muito romântico para o dia dos namorados. Afinal, seu marido merecia. Fazia duas semanas que ele vinha chegando em casa mais tarde, cansado e ranzinza.
Enquanto sua adorável esposa colocava seu pijama para dormir, Carlos pegou seu celular e foi até a cozinha:
- Oi... Hoje não poderemos nos ver. Meu sogro voltou do hospital e acho que minha esposa está desconfiando de algo. Hoje encontrei um gravador na minha mesa.
* Créditos para Henrique Fietz, que colaborou para com o enredo.

